09/03/2026
Ainda sobre o dia das mulheres...
depois de ver tantas homenagens ontem, eu fiquei pensando: se eu vivesse em uma sociedade um pouco menos complexa, dessas onde o termo "guerreira" é literal, eu não gostaria de ser uma mulher guerreira.
Eu sou fisicamente fraca, sou pequena, e até treinos de braço são difíceis pra mim porque eu realmente não tenho muita força. Meu ponto forte é que eu tenho jeito. Com jeito eu consigo me virar, com força nem sempre.
Se eu vivesse numa sociedade onde as tarefas realmente fossem divididas entre guerreiros, curandeiros, sábios, chefes, artesãos… então eu gostaria de ser a contadora de histórias.
Aquela mulher que guarda as histórias da comunidade, que se senta entre os idosos pra ouvir suas memórias e depois se esparrama no chão com as crianças pra contar essas histórias. Quem guarda os objetos preciosos e anota o que não deveria ser esquecido. Posso?
Porque eu acho que de certa forma tento ser essa pessoa no meu dia a dia, mesmo vivendo num mundo colonizado e globalizado, onde a identidade às vezes se perde no meio do assunto que nos torna "todos iguais".
Aqui, nessa sociedade onde ser chamada de guerreira também parece elogio, eu gostaria muito de poder ser só uma contadora de histórias, se você me permitir.
Gostaria de não precisar ser forte pra fazer tudo e pra dar conta até do que não é meu dever, gostaria de poder ser aquela que vive entre os idosos, que aprende a tradição (da fé, do artesanato, da história, da vida) e que depois pode se sentar sozinha só pra criar novos objetos.
Para criar do meu jeito, pra contar as histórias desse tempo em que a gente vive agora, com toda a tradição que ele carrega e que pode transmitir para as novas vidas que ainda virão.
Posso?
Como presente de dia da mulher, posso pedir um mundo onde ninguém é obrigada a lutar pra sempre por conta de um rótulo que a gente nem escolheu?
Posso ser só uma contadora de histórias sonhadora?
Posso realmente ser o que eu quiser?