15/01/2026
Nos interstícios entre o mar e a terra, “Sal e silêncio” observa a paisagem humana que nasce do trabalho manual da pesca. Antes das embarcações e do movimento dos corpos, o olhar se detém sobre aquilo que sustenta — as cordas, as redes, os nós, as fibras. São materiais de ofício que carregam, invisíveis, as mãos que os tecem, os dias que os desgastam, e o tempo que os atravessa.
A série investiga o labor cotidiano dos pescadores e das comunidades que sobrevivem do mar, tomando como ponto de partida os objetos que precedem a captura e garantem a possibilidade da vida. Nestes fragmentos de trama, a fotografia encontra um equilíbrio entre o caos e o rigor, entre o gesto repetido e o improviso, entre o que é simples e o que é indispensável.
Há silêncio nessas imagens, mas não quietude. Há sal, mas não apenas o que vem da água; também o sal simbólico — aquele que conserva a memória, que marca a pele, que permanece. As redes e cordas fotografadas trazem a materialidade de um ofício ancestral que resiste, não apenas como meio de subsistência, mas como forma de pertencimento, saber e território.
Ao aproximar-se dos detalhes, a série desloca o olhar do espetacular para o essencial. Cada nó é um gesto que sustenta; cada fibra, um cotidiano; cada trama, uma economia. Mais adiante, o conjunto se abre para os pescadores, para o mar e para os processos que compõem o circuito da pesca, permitindo que o que antes era apenas estrutura se revele como cultura.
“Sal e silêncio” opera, assim, numa fronteira entre o documental e o poético, entre o registro e a escuta. Não narra apenas o que se vê, mas o que permanece — aquilo que se aprende pela repetição, que se transmite pela experiência e que se guarda, como o sal, pela vida inteira.
Série e Fotografias autorais. Série em desenvolvimento.