02/04/2026
Salve 1º de abril
O dia da mentira e, no entanto, foi hoje que enxerguei algo muito verdadeiro. Hoje, ao final de um processo que começou na infância — e que passou por inúmeros procedimentos odontológicos, três cirurgias ortognáticas, alterações profundas na estrutura do rosto, perdas de sensibilidade, adaptações e estranhamentos — eu olhei no espelho e vi meu nariz de volta. Quem já teve o próprio rosto modificado involuntariamente sabe: não se trata só de aparência, mas de identidade. Hoje, ele voltou. E, com isso, compreendi algo profundo.
Sempre existe uma história que contamos para nós mesmos. No meu caso, havia a ideia — talvez infantil, talvez idealista — de que acreditar no melhor das pessoas, nas relações e nas construções da vida pudesse ser visto como ingenuidade, como erro, como uma espécie de “mentira”, como se ver o mundo com esperança fosse um desvio da realidade.
Hoje, ao olhar meu nariz — esse mesmo que, simbolicamente, remete à história de Pinóquio — entendi que ele sempre foi um sinal de alguém que escolheu acreditar no melhor, mesmo quando não era correspondido. De alguém que preferiu sustentar um ideal, mesmo quando ele não se realizou como imaginado.
O que aconteceu ao longo dos anos — no corpo, nas relações, na vida — não precisa ser interpretado como punição, nem como erro. Foi processo. Assim como um escultor não elimina matéria sem propósito, também não atravessamos transformações sem que algo esteja sendo lapidado, ainda que, por muito tempo, não seja possível entender o que está sendo feito.
Hoje, 1º de abril, no dia da mentira, também marco 31 anos de casamento. E é também o primeiro dia em que vejo, com lucidez, o seu fim. Dentro do meu mundo, criei o casamento perfeito, a pessoa perfeita, os filhos perfeitos, uma ideia de perfeição que eu também buscava em mim. Mas hoje, olhando para o meu nariz de “Pinóquia”— il mio naso di “Pinocchia”— entendo que o que foi perfeito não estava na idealização, e sim em cada pequeno segundo da sua imperfeição. E assim reconheço: foi o casamento perfeito para mim, assim como é perfeita a história que sigo construindo. E isso me traz imensa gratidão.
Existe uma solidão nesse entendimento, mas não é uma solidão vazia. É uma solitude que não exige que o mundo seja diferente do que foi, que não exige que as pessoas tenham sido outras, que não exige que a vida tenha seguido um roteiro específico.
Hoje, ao ver meu rosto de volta a um lugar que reconheço, sinto como se algo tivesse, silenciosamente, retornado ao seu eixo. E talvez seja isso. Talvez a chamada “fada azul” nunca tenha sido algo externo. Talvez seja apenas o momento em que alguém, depois de atravessar tudo, aprende a se reconstruir por si mesmo — sem negar o que viveu, sem acusar o que passou, sem precisar reescrever a própria história.
Hoje, 1º de abril, é o dia em que entendi que acreditar nunca foi um erro. E que, no fim, algumas partes de nós podem se perder por muito tempo, mas, se houver disposição para não desistir de si mesmo, elas podem, de alguma forma, ser reencontradas. Afinal, talvez tenhamos sido colocados aqui para nos tornarmos nossa própria obra de arte, nosso boneco mais elaborado.