05/12/2025
Em Las Vegas, no encontro entre o deserto e a intensidade urbana, Frank Gehry concluiu em 2010 uma das obras mais emblemáticas da sua carreira: o Lou Ruvo Center for Brain Health. Um centro dedicado ao tratamento e estudo de doenças neurodegenerativas — um projeto nascido de propósito, memória e afeto.
Quando visitei o lugar em 2015, senti imediatamente o impacto que Gehry provoca.
Aquela fachada metálica distorcida, ondulante, quase caótica… ela não apenas chama atenção — ela desestabiliza. Causa estranheza. Questiona. Move algo dentro de nós.
É impossível olhar e não se perguntar:
“Será que isso é para mim? Será que é um lugar saudável? Acolhedor?”
E talvez seja exatamente aí que mora a genialidade dele.
Gehry cria formas que desafiam nossa percepção, tensionam o familiar e nos colocam em estado de alerta. Sua arquitetura expressa movimento, instabilidade, emoção — e isso gera sensações complexas, nem sempre confortáveis.
Essa pele metálica que parece derreter no deserto, essa loucura de curvas e torções, essa instabilidade visual… tudo reflete a complexidade da mente humana, tema central do centro neurológico.
Por dentro, o contraste: estrutura clara, ordenada e leve, quase como se o interior tentasse acalmar aquilo que o exterior agita.
Para mim, como arquiteta, a visita foi um marco.
Entendi que a arquitetura pode curar, acolher, sensibilizar — mas também pode provocar, tirar do eixo, despertar perguntas profundas.
E talvez seja esse o maior mérito de Gehry:
Ele nos lembra que arquitetura não existe para agradar.
Existe para transformar.