05/06/2026
Há coisas que o mundo chama de feias, estranhas, sombrias e desconfortáveis. E por medo, muitas vezes as trancamos em baús profundos, onde o pó do esquecimento tenta sufocar a verdade. Mas há um caminho, um rastro de sombras delicadas: é o Caminho do Sinistro Feminino, um território onde a alma caminha de pés descalços sobre espinhos e flores. Muitas de nós se sentem deslocadas, estranhas diante do espelho da alma. Somos, às vezes, a feiúra que ninguém quer ver — outras vezes, beleza selvagem e crua, ancorada nas raízes que nos ligam à Arte Ancestral, a Fé sem nome, a canção que vibra na pedra e na água. Ervas venenosas é o que somos. Crescemos onde ninguém espera: nas rachaduras do concreto, nas fendas dos muros que tentaram nos conter. Nosso reino pulsa onde pulsa o desejo. Somos fiéis à lua e à noite, não por moda, nem fantasia. Somos as que fazem o trabalho real — cru, sagrado, perigoso, necessário. Bruxas têm coragem. E o coração é nossa oferenda. Testemunhas da criação, às vezes cansadas, às vezes incompreendidas,
mas sempre transformadas pela Arte. Certa vez ouvi:
"Antes de andar com o vento da noite e ouvir os cânticos lunares, precisas descer ao seu porão e fitar teus demônios no espelho — vê-los como são e aceitá-los.
Se não estiver pronta...
não olhe." Há que se render à escuridão interior, com todo o terror que ela traz,
para enfim tocar o bálsamo da sabedoria, o dom do amor,
e a lâmina fina da verdade.
Pois, se negamos nossos monstros, seremos devoradas por eles. E os deuses severos, esses sim hão de moer nossos ossos, pois desejam fazer de nós... pérolas. Lembremos:
os espíritos da Arte não são servos dos nossos desejos.
Eles esperam nosso suor,
nosso sangue, nossa entrega.
Chega de colecionar livros e esperar milagres. A magia exige trabalho. Reclamar não paga, não invoca, não transforma. Você, assim como eu, já ouviu o chamado. Então... levanta-se, mulher de sombras e estrelas. A Lua Nova espera tua dança.
Luciana Saba