03/08/2025
O Ritmo da Criação
Criar é um processo que não se mede em horas nem em passos. Há dias em que tudo flui como se o universo soprasse ideias diretamente para as minhas mãos — basta-me estar presente, abrir espaço, deixar-me ir. Nesses momentos, sou rio, sou vento, sou qualquer coisa maior do que eu. A criação nasce livre, quase sem esforço, como se sempre tivesse existido à minha espera.
Mas há outras vezes — tantas vezes — em que a criação se torna pesada. Não porque eu não queira, mas porque não posso. Porque a alma se fecha, porque o corpo cansa, porque o mundo dentro de mim se confunde e se torna ruído. Nesses dias, estou presente, mas ausente. Quero criar, mas não alcanço. Sento-me diante da matéria e ela não responde. E eu também não.
Criar é mais do que simplesmente fazer. É escavar fundo, tocar nas emoções, transformar dores e alegrias em forma, cor e expressão. É um ato íntimo, quase sagrado. Por isso, quando o caos me visita, quando os pensamentos escurecem e a energia me escapa, não consigo seguir. Fico paralisada. Porque criar, para mim, é viver — e às vezes viver também dói.
No entanto, mesmo nesses silêncios, há criação. No intervalo entre um gesto e outro, no tempo em que me recolho, algo dentro de mim vai sendo tecido. Lentamente. Silenciosamente. Porque eu sou feita disso — de pausas, de intensidade, de quedas e retornos. E um dia, sem saber bem como, volto a criar. Volto a ser.